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domingo, 8 de maio de 2011

Amor platônico

O amor platônico é entendido como um amor à distância, que não se aproxima, não toca, não envolve. Reveste-se de fantasias e de idealização. O objeto do amor é o ser perfeito, detentor de todas as boas qualidades e sem máculas. Ocorre frequentemente na adolescência, principalmente nos indivíduos mais tímidos, introvertidos, que sentem uma maior dificuldade de aproximar-se do objeto de amor, por insegurança, imaturidade ou inibição do ponto de vista emocional. Quem nunca passou por isso?

Conta-nos Platão em "O Banquete" uma conversação acerca da natureza, do sentido e as implicações do amor. Teve como participantes Apolodro, Fedro, Agatão, Sócrates, entre outros. Eles fazem várias descrições de amor, todas unilaterais, embora não falsas, até chegar a vez de Sócrates. Sócrates diz que em sua juventude, ele foi ensinado "a filosofia do amor" pela sacerdotisa Diotima.
Ele fala sobre o surgimento de Eros. Mas antes, vale-se saber que na mitologia grega, Eros era o deus primordial do amor e beleza. Na mitologia romana, foi conhecido por Cupido. Na Teogonia de Hesíodo Eros, que mais tarde se chamaria amor, era um deus primordial, ainda não havia masculino e feminino e Eros expressava o impulso do universo em se manifestar, de trazer à luz o que estava oculto na escuridão. Em alguns mitos, Eros é o filho das divindades Afrodite e Ares. Nesse diálogo, Sócrates nos apresenta uma terceira versão de Eros. Suas idéias são a origem do conceito de amor platônico.
Acontece que o amor platônico é o mais incompreendido de todos os conceitos de Platão. As pessoas, que em sua maioria não conhecem a obra de Platão, pensam que amor platônico significa amor ascético ou assexuado porém isso não é verdade pois em "O Banquete", Platão apresenta o amor sexual como um ato natural, mas com raízes infinitamente mais profundas.
Para ele, o amor é um princípio cósmico, afirma que o amor é uma escada com sete degraus, que vão do amor por uma pessoa até o amor pelas realidades superiores do universo. O passo inicial nessa escada, para a maioria das pessoas, ocorre através do amor físico. Mas se você se apaixona por uma pessoa, atraída por qualidades e fixa-se exclusivamente nessa pessoa, nesse primeiro degrau de uma escada que possui muitos outros, permanece parado, em comparação a tudo que uma pessoa pode vir a ser.
Quando você está apaixonado, é como se o universo estivesse concentrado na outra pessoa. Isso não é necessariamente falso. Platão diz que, em certo sentido, o universo realmente está nessa pessoa. Você só precisa transformar essa dimensão e ver não apenas a pessoa, mas o universo nela.
O amor platônico é tão amplo e universal que, embora comece como amor pela forma bela, termina como o amor pela própria beleza, um princípio eterno do universo. Você é levado, de um modo muito natural, a perceber que todas as formas belas são dignas de amor, se torna sensível a todas elas. Platão emprega constantemente o termo beleza; a beleza das idéias toma-se tão ou mais real que a beleza física.
Amor e beleza estão ligados. Você vê beleza quando está amando. À medida que progride, você sente por todas as formas belas a espécie de exaltação que experimentou quando se apaixonou pela primeira vez. Quando permite que o amor o leve para a frente, você sai do particular em direção ao múltiplo.
Em seguida, você vê que a beleza da mente é mais maravilhosa que a beleza da forma. Platão afirma que você se apaixona pela qualidade da mente de uma pessoa mesmo que sua forma física não seja tão graciosa. Essa é uma progressão do concreto para o imaterial, sob a influência e inspiração do amor.
Então na escada do amor temos o segundo degrau que é amar todas as formas físicas belas. O terceiro que é amar a beleza da mente, independente da forma física à qual ela está associada. O quarto degrau que é a ética - o amor pelas práticas belas. Envolve integridade, justiça, bondade e consideração. É um passo mais abrangente e universal. Ele conduz ao degrau número cinco, que é o amor pelas instituições belas. No sexto passo você se apaixona pela ciência, que articula não só as leis que governam o indivíduo, a família e a sociedade, mas algo que transcende o meio local. A beleza da ciência é universal.

Depois de passarmos por todos os degraus, ocorre, no sétimo passo, uma diferença de gradação; subitamente você vê não a manifestação da beleza, mas a beleza em si. Esse é o ponto alto dos sagrados mistérios. O amor se expressa como a manifestação eterna da beleza em si. Você se apaixona pela essência que torna belas todas as coisas.
Por isso, os seres humanos certamente valorizam a experiência do amor e do sexo. Por meio de um amor sexual intenso, cada um de nós experimenta por breves momentos a autotranscendência e a abnegação. No sétimo degrau da escada, essa autotranscendência, que era breve e momentânea, transforma-se no estado natural onde passa-se a habitar em tempo integral.
 
Enfim, é certo que muitos de nós (para não dizer todos) já passou ou passa por uma situação de amor platônico semelhante à citada no início desse post, mas poucos são os que conseguiram subir a escada até o final. A verdade é que hoje em dia a moda é parar no primeiro degrau, no amor idealizado e egoísta. Felizes foram os poetas da era clássica ter a possibilidade de realizar o desejo amoroso mas, por opção, renunciar a ele. Apenas para provar que o amor (perfeito e eterno) está acima do desejo (físico e circunstancial).
Infelizmente, o que acontece hoje, em muitos casos, é o relacionamento físico apenas como meio para se obter prazer e/ou algum benefício. Como seria muito melhor se as pessoas conseguissem chegar ao menos na metade do caminho, na metade da escada, muita coisa seria diferente. É triste ver o rumo que nosso planeta está tomando, lamentável.
 
Para finalizar esse post que já está querendo mudar o foco quero parabenizar aquelas que são o símbolo do amor puro e incondicional, as mães. Parabéns para nós!
 

 
See ya!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Pensamento mítico


Olás, quanto tempo?
Estudando filosofia, deu vontade de escrever sobre um assunto que muito me agrada, mitos. Muitas pessoas definem os mitos como histórias desconexas, como fantasias criadas sem qualquer relação com a realidade ou como um conjunto caótico de superstições. Mas será apenas isso? Para tentar explicar o que quero dizer, vou usar como exemplo uma das melhores mitologias na minha opinião, a grega.

"Cora, filha da deusa das colheitas, Deméter, brinca pelos campos verdejantes da Grécia. Cora é uma adolescente cheia de vida. Ela corre, pula, brinca com as flores e com as borboletas. Mas Cora não sabe que está sendo observada. Perto dali, Hades, deus do subterrâneo, observa Cora brincar e pensa: que bela adolescente essa Cora!
Hades então resolve raptar a doce Cora. Ele coloca em movimento sua carruagem puxada por dez fortes cavalos e parte em sua direção. Cora, ao perceber o que se passa, corre, mas em vão. Hades toma Cora em seus braços e a leva. No mesmo momento se abre no chão uma grande fenda e a carruagem desce para o centro da terra.
Ao cair da noite, a mãe de Cora, Deméter sente sua falta e sai a sua procura. Dois camponeses que presenciaram a cena contam-lhe o que aconteceu. Deméter fica louca de dor e, desconsolada, proíbe que as plantas, o capim, as árvores, as frutas e os cereais cresçam.
Os camponeses ficam preocupados e tristes pois sem o crescimento das plantas, eles iriam perecer. Eles imploram aos deuses para que o verde retorne. Os deuses pedem para Deméter deixar a vegetação crescer, mas ela estava irredutível: nada crescerá ou voltará a florescer enquanto Cora não voltar.
Zeus resolve intervir. Manda o mensageiro Hermes ao mundo inferior falar com Hades para trazer Cora de volta. Mas ela só poderá voltar se não tiver comido nenhuma comida do reino do mortos. O jardineiro informa a Hermes que ela havia comido sete sementes de romã. Dessa forma, Cora não poderia voltar. Mas Deméter não volta atrás de sua decisão e não permite que nada floresça.
Zeus então estuda o problema e propõe uma possível solução para o impasse. Como ela comeu apenas sete sementes de romã, durante seis meses Cora ficará morando com Hades no subterrâneo, será sua esposa e se chamará Perséfone (aquela que causa destruição). Durante os outros seis meses, Cora voltará e passará em companhia de sua mãe Deméter.
Quando Cora está com sua mãe, esta fica muito feliz. Nesse período, a natureza reflete a felicidade de Deméter: a terra está coberta de verde com flores e frutos.
Quando vai se aproximando o momento de Cora partir, sua mãe vai ficando triste e a vegetação também começa a mudar.
Quado Cora retorna ao subterrâneo com Hades, as folhas começam a secar e a cair. As plantas e os frutos cessam de crescer e nada mais floresce. Até o Sol não brilha com a mesma intensidade de outrora.
Quando novamente se aproxima o momento de Cora voltar, sua mãe vai ficando alegre e a natureza começa a florescer novamente e assim sucessivamente."

Consegue entender o significado desse mito? Percebe como esse mesmo fenômeno foi abordado e explicado pela ciência de forma "lógica" e concreta? As vezes acho que a ciência veio apenas para acabar com a "magia" dos acontecimentos. Mas enfim, concluí-se que mitos/mitologias não são histórias desconexas nem fantasias criadas sem um motivo.
O pensamento mítico é anterior a filosofia. Quando a filosofia surge, na Grécia antiga, ela se depara com um mundo povoado por concepções míticas. Um mundo "povoado" por deuses, deusas, heróis e monstros. O mito era uma forma de explicar o mundo, de atribuir sentido ao existente e assim tranquilizar o ser humano.
E os mitos não foram produzidos apenas na Grécia antiga. Diferentes povos, em diferentes épocas produziram seus próprios mitos. Como se sabe, existem várias mitologias além da grega. Aqui no Brasil por exemplo, temos fatos de mitos criados por tribos indígenas. Lembra-se de tantas dessas histórias que fizeram parte de nossa infância? Ao menos na escola, tenho certeza que fez presença na infância de todos que nela frequentou. =P
O ponto comun entre as diferentes concepções míticas é a busca por dar sentido ao mundo, dar uma explicação para os muitos fenômenos desconhecidos, pois o problema sobre o conhecimento sempre preocupou o ser humano e no mito percebemos a primeira tentativa de se "conhecer" o mundo, ou de ao menos, atribuir-lhe um sentido.
Tempos depois, essas explicações míticas seriam questionadas por aqueles que iriam ser conhecidos como os primeiros filósofos, como os pré-socráticos. Mas, isso é assunto para um outro post. =P

Pois é, novo layout. Verei se volto a postar com mais frequência.
Bom fim de semana all.
=]